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18 março 2010

77. Sebastiana

Para Jerônimo Vieira

Jackson do Pandeiro internalizou o coco de roda. Com sua apurada antena estética aprimorada pela atenção ao trabalho dos cantadores das feiras de Campina Grande-PB, Jackson implodiu os limites que ainda hoje teimam em distinguir (separar) o rural e o urbano.
Sua mirada cosmopolita se deixa perceber desde o nome - Jack vem dos filmes de faroeste que o ritmista curtia - até os temas cantados - basta atentar para a letra de "Chiclete com banana". Vale a pena ler Jackson do Pandeiro: o rei do ritmo, de Fernando Moura e Antonio Vicente, para entender o tempo e o espaço do ritmista.
A maneira toda própria de cantar, de marcar a cadência da melodia e de se apresentar fez Jackson ser consagrado pelo público (que se identificou com aquele cabra arretado) e pela crítica (devido à incontestável competência artística).
"Sebastiana", de Rosil Cavalcanti, está no primeiro LP do ritmista: Jackson do Pandeiro (1955). Na verdade uma compilação de canções já conhecidas. A canção guarda em suas entrelinhas sonoras a potencialidade da malandragem - o convite ao canto e à dança - e o tema da briga amorosa. Motes que atravessam o cancioneiro de Jackson.
Além, claro, do elemento lúdico no jogo das vogais - a, e, i, o, u, ypsilone -, que faz junto com os instrumentos a marcação do ritmo, há uma sugestiva saliência: ypsilone aqui pode ser lido tanto pelo viés erótico, basta lembrar que esta expressão aparecia no discurso cotidiano do interior do nordeste como sinônimo de um modo peculiar de ato sexual: alguns livros de Jorge Amado, por exemplo, recolhem isso; quanto pelo viés da infiltração de estrangeirismos na tradição da dança.
O verso "não faça sujeira" reforçam estas leituras: ambas apontando um sujeito preocupado com as novidades que Sebastiana tenta imprimir no canto e no xaxar da Paraíba. Seja como for, mantendo certos comportamentos, mesmo depois de ser advertida pelo sujeito, Sebastiana continua gritando "a, e, i, o, u, ypsilone". Ela é musa híbrida: guarda em si a tradição local e a tradução daquilo que vem de fora, uma tal "dança diferente". Ela brinca fazendo todo mundo chiar a chinela.

***

Sebastiana
(Rosil Cavalcanti)

Convidei a comadre Sebastiana
Pra cantar e xaxar na Paraíba

Ela veio com uma dança diferente
E pulava que só uma guariba

E gritava: a, e, i, o, u, ypsilone

Já cansada no meio da brincadeira
E dançando fora do compasso
Segurei Sebastiana pelo braço
E gritei: não faça sujeira

O xaxado esquentou na gafieira
E Sebastiana não deu mais fracasso

Mas gritava: a, e, i, o, u, ypsilone

Um comentário:

dadina disse...

"jacksoul brasileiro"
mutio bommmmm!